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Poemas para Brasília
Balada das Musas do Planalto gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
25 de Março de 2009

Balada das Musas do Planalto
 
E da cidade em começo,
Escreve a carta Marília.
Manda a Gonzaga o endereço:
Pálace Hotel de Brasília.
 
Na distante encruzilhada,
Que o amor nunca me abandone.
Vai  Lindóia pela estrada
Quando Moema é o cicerone.
 
Na floresta sol e ouro
Brilham o cubo e o losango.
Laura coroa de louro
A cabeça do candango.
 
Na capital que não dorme,
No horizonte nunca sáfaro,
Beatriz vestindo uniforme,
Rege os sinais do semáforo.
 
Para nunca vos perderdes,
Amiga longe do lar,
Traz os faróis sempre verdes
Para o meu amor passar.
 
Se esta rua fosse minha,
Eu mandava asfaltar
De asfalto de Mataripe
Para o meu amor passar.
 
Marília não vai sozinha.
 
Jamil Almansur Haddad, poeta natural de São Paulo.
“Poemas para Brasília”, antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
PRIMEIRA IMPRESSÃO DE BRASÍLIA gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
18 de Março de 2009

PRIMEIRA IMPRESSÃO DE BRASÍLIA
 
Quando te conheci
Fiquei maravilhado
Era noite e parecias um pirilampo.
Tuas luzes multicores me encantaram
E lá do alto te fitei demoradamente
Imaginando o que me esperava no teu seio
Via o corolário de tua existência
Tudo desfilava diante de mim, como num filme.
Recordava os velhos mestres e suas lições
Recordava as vicissitudes e odisséias de tua origem.
Lembrei que nasceste no sonho do santo
Para ser a flor do amor e da esperança.
 
Quisera ter sido um dos teus jardineiros.
Te imagino nascendo e crescendo para o mundo
Te imagino abrigando em teu ventre a vida
Vida que será o sêmen da nova vida.
Sou apaixonado e rendido aos teus encantos
Tuas pétalas e teu néctar me seduzem.
Te adoro, minha doce menina
És a flor divina do cerrado
A flor maravilhosa do Planalto.
 
Abbas Al Mansour (Luiz Gonzaga da Rocha), poeta pernambucano, nasceu em Pesqueira.
Reproduzido do livro “Brasília: vida em poesia”, organizado por Ronaldo A. Mousinho.

 

 
Canção da fábula inicial (Brasília) gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
10 de Março de 2009

Canção da fábula inicial (Brasília)
 
Só havia noites e manhãs.
Com o avançar dos dias
as máquinas chegando.
Não se podia saber
mas o certo é que elas
tinham uma importância
maior que os homens,
e também a madeira.
Havia sulcos já cortes na crosta
angustiada; cerrados, caminhos,
estradas, árvores partidas,
terra solta, animais fugindo.
As máquinas sempre chegando.
Os caminhões de madeira
e gente.
Com espaço de alguns dias
a terra na sua superfície
lembrava restos de tempestade.
Era chão batido, chão sulcado, chão ferido.
Mas ainda não era nada. As
máquinas devoravam o chão, cortavam riachos,
trituravam árvores.
Noites de negrume estranho.
Os longes e as tardes coloridos,
mas ninguém olhava. As casas de madeira
apareciam. Parca, a vida que nelas começava;
mas começava. A terra
podia estar aceitando o domínio do homem,
mas ninguém olhava. Nem a dor
de um e outros se pressentia.
Os homens, tanto como não se esperava,
chegavam; vinham, apareciam
mais do que as máquinas e utensílios,
não eram previstos.
Nem pensavam no velho e no muito velho
e novo corpo, nem
se avaliavam. Eram iguais
aos retorcidos troncos do cerrado.
As roupas iam-se desfigurando
e não percebiam, e as pequenas feridas
apareciam na pele e não eram vistas e cuidadas,
nem as mãos e os cabelos
eram lembrados.
Em tudo começavam um movimento,
fora ou dentro da hora,
porque tudo era lícito
tudo estava fora do lugar,
criava e recriava a vida.
As casas aumentando,
mas nelas ruídos não se ouviam,
só a vida no largo chão de sol e lua.
 
2.
Uma primeira lua passou
e ainda  tudo era o mesmo.
O que se modificava era
a terra com suas feridas.
Chão batido e chão claro.
Já um e outro tiveram fome,
e pegaram a lembrar de alguma
coisa que ficou para trás.
Chegava o momento em que o homem
redescobria-se. E assim ele podia olhar
em redor e fazer amizades,
porque tudo isso é de sua tradição.
Ele olhava a terra
e pôde com a fome olhar as estrelas
e pegar numa árvore, observar a água,
e amar sua aventura.
E, ao mesmo tempo que andava
para agir contra a fome,
também podia pensar.
E começava a miúda afeição
de um e de outro pelo sítio,
do homem pela máquina,
do povo pelas estrelas e caminhos.
 
3.
Um dia a mulher chegou.
Alguns homens, velhos e novos,
tiveram logo a notícia.
Era a primeira que vinha
à terra. As máquinas, os
homens, depois ela.
(...)
 
4.
A terra viu o crime.
Foi no acampamento da
“Pacheco Fernandes”.
Os operários encurralados,
reclamavam direitos.
Eram dez horas no pla-
nalto.
        Foram metralhados.
        A madeira curtida
pelo sol
e pela chuva
foi feita em pedaços
(eles amoitavam-se
nas casas de tábuas),
feita em sangue.
No caso não mais se falou.
Havia-se iniciado a vida no ermo.
Tudo agora diluía-se
no emaranhado de humanidade
que despontava de esquinas
de matos e encostas.
Sinais humanos,
terra ferida.
 
5.
Como se faz uma cidade?
Com vidas e argamassas?
Como se faz uma cidade?
Com operário se conta?
É a mão do homem quem sabe.
Como se faz uma cidade?
Com a mão se faz o sonho.
(...)
 
José Godoy Garcia, poeta goiano, nasceu em Jataí.
“Poemas para Brasília”, antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
Casas Populares gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
05 de Março de 2009

Casas Populares:

Diria, cogumelos como filas
ou um exército de casas rudes
onde luta o homem com seu garfo
e sexo na planície: cama e mesa.

Assim as paredes se dividem, se dividem
as vidas no limite tênue dos terreiros
e os mil vizinhos se entreolham e se devoram
em picuinhas, namoricos e agressões.

Affonso Romano de Sant'Anna, poeta mineiro, nasceu em Belo Horizonte.
"Poemas para Brasília",  antologia de Joanyr de Oliveira

 

 

 
Brasília Brasilae Cor. gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
28 de Janeiro de 2009

A rota do Porvir é Oeste. Aflora
No mármore Brasília, esbelta e bela.
Nela o granito, que o buril cinzela,
Contornos de arte ousada atinge agora.
 
Sol, hinos de aço, aviação sonora,
Trama de estradas, forja, arado, cela,
Estrondo de mancais – tudo revela
A andada para a Glória, nesta aurora.
 
É a Nova Civilização da Raça
No Planalto Central, abrindo à gente
Missão colonizante, que Deus traça.
 
Deixando a falxa – tanga de índio a esmo –
O Brasil se reencontra, finalmente,
E ingressa na Grandeza de si mesmo.
 
Pe. Pedro Luís.
(Reproduzido da revista "Brasília", da Novacap, edição de janeiro de 1959, número 25)

 

 
EVOCAÇÃO gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
22 de Janeiro de 2009

EVOCAÇÃO

(Aqui retoma palavra
         a evocação de um amigo
bem vazada em prosa honesta,
         esta que em verso gravamos
pra melhor timbrar a gesta.)
 
 
 
- "Inigual era Bernardo,
         Bernardo Sayão, vos digo:
o que em contínuas andanças
         pelo interior do Brasil,
- tão grato a seu coração, -
           obras sem par realizou
prodigando gestos dignos.
 
 
Até que a floresta irada
            ante os golpes de machado
do lenhador implacável
            findou por ceifar-lhe a vida.
 
 
Interrompeu dessa forma
            a intrépida trajetória
do grande desbravador.
Não conseguindo, contudo,
            destruir o maravilhoso
legado que nos deixou
            sua insólita figura,
de conquista memorável."
 
 
 
                          (Bernardo Sayão. Pra sempre.
 
                           O da vida quase fábula.
 
                           O do perfil quase lenda.)



Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Transcrito do livro "Saga do Planalto"

 
DUAS FLORES gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
21 de Janeiro de 2009

DUAS FLORES

 

Seguindo-se à tristíssima vigília,
         em nome dos candangos de Brasília
chegou José, duas flores na mão.
 
E era uma de um pálido amarelo
         e era a outra de um roxo compaixão:
se numa o sol chorava, doendo as pétalas,
         doía noutra um pisado coração.
 
Mas caindo na tumba as duas flores,
           à queda se quedou mais que intuição.
 
Que toda uma certeza florescia,
           que José se fez símbolo de todos
os josés de Brasília e do Brasil:
            todos josés das bandeirantes trilhas
da agora Estrada Bernardo Sayão.



Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Transcrito do livro "Saga do Planalto"

 
SONETO gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
20 de Janeiro de 2009

SONETO

(Ante o túmulo de Bernardo Sayão)

 
Cismo e sonho, absorto, ante a lápide singela...
E o teu nome repito... Aos poucos, lento, brando,
ante a imaginação, se vai delineando
o teu perfil de bravo; e a tua vida bela,
 
entre rasgos de audácia, heróica, se revela...
Na hora imprecisa e vaga em que o sol se põe, quando
assim teu nome invoco, eis que, no azul brilhando
- num símbolo por certo, - aparece uma estrela.
 
Descansa na Cidade entressonhada um dia.
Repousa, Bandeirante, que teu rincão amado,
(sob o vasto céu, entre árvores de Cerrado).
 
que eu, ao ler o teu nome em a lápide fria,
a glória te adivinho ao calor da emoção:
- Ó Sertanista audaz, ó Bernardo Sayão!


Geraldo Costa Alves, poeta natural de Alegre, Espírito Santo.
Transcrito da antologia "Poetas de Brasília", de Joanyr de Oliveira (1962)

 
Ar Elegíaco gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
19 de Janeiro de 2009

Ar Elegíaco

- Queria ser sepultado
- dizia ele – em Brasília.

- Hoje à noite foi construída
- nunca vi tanta amargura –
esta estradinha tão triste
que conduz ao campo-santo,
dá no Campo da Esperança.

- E hoje nome de ironia:
Dr. Bernardo inaugura-o

- Mas junto ao Dr. Bernardo
há mais alguém sepultado.

- É certo: um dos operários.
Morreu também. De um colapso.
Ao saber da morte dele.

- Quem sabe nalguma estrada
recém aberta no Céu
lá vai o operário fiel,
num trator ressuscitado,
acompanhando seu chefe?

Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 
NINGUÉM OUSE INTERROMPE-LOS gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
18 de Janeiro de 2009

NINGUÉM OUSE INTERROMPE-LOS

Ao pé do morto, excelenças.
Os benditos, à cabeça.

As excelenças, primeiro,
Cortejo de rudes anjos.

Ei-los, graves companheiros,
doze vezes canticando:

"Faz uma hora que os anjos
Vieram lhe ver.
Lá do alto do azul vieram
por vosmecê.

Faz duas horas que os anjos
vieram lhe ver"...

E os pelo-sinais cruzando
na humildade de mãos trêmulas
os de contrito sofrer.

Rezam benditos, depois.
- Vozes de cruzes alteadas.

Tardas horas, preces tardas,
os cantadores em coro:
"Queremos Deus pra Dr. Bernardo.
Paz a seu corpo
céu à sua alma.
Queremos Deus para o que se vai.
Cristo Senhor
Deus nosso Pai."

Na solidão sem consolo
do dia que processiona,
a tristeza cor de barro
dos candangos de olhos d'água.


Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 
DOS HOMENS ATERRADOS gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
17 de Janeiro de 2009

DOS HOMENS ATERRADOS

(continuação)


- Chora, viola que me inspira!
A vara do Curupira
é vara de japecanga.
Da carcaça da cigarra
que morre de tanto canto
é que a japecanga nasce.


- Chorou minha viola triste.
Tristeza veio e suspira.
Se a vara do Curupira
acaso bate em vivente,
adeus coração que bate!
Adeus coração da gente!


- Minha viola malferida,
minha viola dor de corte;
já vou dando a despedida.
Como a vida deu à sorte.
Como a morte deu à vida.
De luto marcando o norte.

Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 
DOS HOMENS ATERRADOS gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
16 de Janeiro de 2009

DOS HOMENS ATERRADOS

- Eu pra mim foi mão de jia
pra encaiporar, meu compadre.
Feitiço, puro feitiço.


- Chamado Dr. Bernardo,
cada vez mais atraído
por sombra nefasta,
bem sob o galho fatídico.


- Naquele maldito instante,
quando o galho despencava,
ouviu-se um diabo de riso.


- Cruz credo! De quem seria?


- Por que ririam, candangos?


- Foi Curupira, ofendido,
Curupira de vingança.


- Há sinal de Curupira?


- Olha no chão, bem à vista!


- A vara de japecanga!

 

 

 

Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 
É QUANDO SE DÁ A TRAGÉDIA gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
15 de Janeiro de 2009

É quando se dá a tragédia,
                   Bernardo, meu Bandeirante.
 
É quando se dá a tragédia.
                   Lá do alto de uma das árvores,
daquelas, ai! gigantescas,
                   o galho de impacto imenso,
 
o galho mortal. Despenca,
                   te atinge a cabeça e as pernas.
 
É quando o maldito instante.
 
Por que? Por que – grito à vida –
                   a sorte má, desferida
nesse golpe revoltante?
 
Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 

 
Crônica de uma cidade quando nasce gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
29 de Dezembro de 2008


 
 
Esta cidade ainda gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
23 de Dezembro de 2008

Esta cidade ainda

(final)

Mas a culpa não é tua
e nem se trata de culpa:
vamos falar dos teus erros.
Os palácios plácidos,
dos quais atiram pacotes
cheios de números podres,
protegem-se, militares,
atrás de um desfiladeiro
de prédios embrutecidos.
Os jardins, ásperos,
sendo macios,
foram feitos para homens
livres,
não os escravos que somos.
 
Teus filhos, em fantasia,
partem com malas, família,
deixando-te só e nua
feito mulher violada,
deserta como se o vírus
houvesse varrido as casas
que se abrem sobre quadras
de mãos postas para o céu
sentado em suas cabeças.
Horizontal, esquisita,
como se meio maníaca,
mereces que teus condôminos
troquem as ruas-estradas
por imagens mais prosaicas
- que, feitas as contas,
parecem com tuas quinas.
 
Dentro do país imenso
em que se nega a tantos
a posse mínima da terra,
entre outras mesquinharias,
não acredito que escolhas
magoar teus habitantes
- ou serei talvez ingênuo?
Ao cantar teu jeito obtuso,
tuas riquezas ambíguas,
de um milhão de milícias
à rodoviária onde
fazem fila os humilhados,
descarto a imagem gasta
do desenho oficial:
és a cidade de açúcar
(como quem diz da utopia)
a um só tempo concreta
onde cresce minha filha.


Fernando Marques, poeta natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
Esta cidade ainda gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
22 de Dezembro de 2008

Esta cidade ainda

(continuação)
 
Eles querem sua terra,
o mar, outra geometria,
morrer, dormir noutras umas,
não as da boa Esperança.
Eles te cobram a dívida
da derrota que, geral,
foi a derrota política
de um sonho meio maroto;
nunca foi apenas um sonho,
ou puro,
coisa nenhuma.
(Eu vivi: amigos, primos,
mesmo aquela namorada
me foram todos embora.)
Disto te acusam, cidade,
da culpa que não é tua.
 
Pois te defendo, cidade,
se me é dado fazê-lo:
a anedota na qual
o último a ir embora
fecha as luzes do espetáculo
muito cedo foi escrita
na tua pele sensível.
Desde logo
te sentimos como exílio.
Penso que não querias
ferir teus Rios, Bahias,
zombar de São Paulo,
Minas,
e Goiás, principalmente.
É melhor te abandonarem,
parece ser o que querem...
Afinal, as longas pistas
que cortam a tua alma
convidam teus inquilinos
a irem, um dia, embora.
 
(continua amanhã)


Fernando Marques, poeta natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
Esta cidade ainda gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
21 de Dezembro de 2008

Esta cidade ainda

Cidade, saudades de todo o país
te habitam,
goianas, mineiras, nordestinas
ilhas
ligas com neutro sotaque
- e como fazes sofrer
 
Fazes sofrer um bocado.
 
Teus filhos te rejeitaram
ou, quando muito, te esnobam.
Não puderam perdoar
não seres o paraíso
(são teus filhos adotivos),
esperança que a rotina
torna ironia,
dia após outro
e cinzas
- levam, todos, a nada.
 
Teus bandeirantes ingênuos
logrados querem voltar
a suas terras de origem
(algumas já não existem).
 
Acho que não tens culpa.
 
Um a um, eu os vejo abandonar
a planície calcinada.
(Deliro:
na verdade, chegam outros,
muito mais que caberia
nestas aldeias exíguas.)
Não, eles não te habitam
se consultarem o peito
e por isso tuas ruas
- anti-ruas
Semelhantes a estradas –
andam vazias:
eles pensam noutra coisa.
 
(continua amanhã)


Fernando Marques, poeta natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
Cimento & devaneio gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
20 de Dezembro de 2008

Cimento & devaneio

(final)
 
 
Canto o Palácio dos Arcos,
o Parque Zoobotânico.
Os espaços que me ofuscam
com seu fausto arquitetônico.
 
Em domingos de lascívia,
de azul mais rijo e mais puro,
canto a cidade e seus olhos
voltados para o futuro.
 
Trevos que emergem das trevas,
volúpias que se bifurcam.
Alamedas de aloendros,
retas que esbarram nas curvas.
 
Bustos despontam do verde
com o despudor de uma orquídea.
Nuvens são formas de incesto
em domingos de lascívia.
 
Presságios deitam raízes
no coração da metrópole.
Outrora, ali, só se ouvia
rumor de perfuratrizes.
 
Jardim de astúcia e algarismos.
- Urbe de rubros ovários
em cujo dorso galopam
descendentes de centauros.
 
Cidade em corpo de pássaro,
Longas asas de albatroz.
Em teu ser de liberdade
um pouco de todos nós.


Francisco Carvalho, poeta cearense, nasceu em São Bernardo das Éguas Russas.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
Cimento & devaneio gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
19 de Dezembro de 2008

Cimento & devaneio

Todos cantam sua terra
também vou cantar Brasília:
cimento que devaneia
em domingos de lascívia.
 
Os anjos da catedral,
madre erguida em praça pública.
Os vitrais incendiados
pelas centelhas da súplica.
 
Canto as asas desse pássaro,
plumagem de relva e brisa.
Seus mamilos lapidados
em domingos de lascívia.
 
O lago como um rebanho
de ovelhas pacificadas.
Pupila de um deus insone
que incendeia as madrugadas.
 
Lúcio Costa, Niemeyer,
a Ermida Dom Bosco.
Seios brotando da relva
nas tardes de vidro fosco.
 
Canto a cidade sonhada
pelo argonauta de Minas.
- Urbe que o mito preserva
dentro de nossas retinas.
 
Os candangos e a magia
das mãos que semeiam gestos,
modelam vigas que brotam
dos sonhos dos arquitetos.
O cerrado e seus crepúsculos,
nos momentos de vigília.
O amor que devora os corpos
em domingos de lascívia.
 
(continua amanhã)


Francisco Carvalho, poeta cearense, nasceu em São Bernardo das Éguas Russas.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
O ermo gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
18 de Dezembro de 2008

O ermo

(final)
 
III
 
 
(...)
E tu, ó musa, que amas o deserto
E das caladas sombras o mistério,
Que folgas de embalar-te aos sons aéreos,
D'almas canções, que a solidão murmura,
Que amas a criação, qual Deus formou-a,
(...)
 
 
IV
 
Mas não te queixes, musa; - são decretos
Da eterna providência irrevogáveis!
Deixa passar destruição e morte
Nessas risonhas e fecundas plagas,
Como charrua, que revolve a terra
Onde germinam do porvir os frutos.
O homem fraco ainda, e que hoje a custo,
Da criação a obra mutilando,
Sem nada produzir destrói apenas,
Amanhã criará; sua mão potente,
Que doma e sobrepuja a natureza,
Há de imprimir um dia forma nova
Na face deste solo imenso e belo:
Tempo virá em que nessa valada
Onde flutua a coma da floresta,
Linda cidade surja, branquejando
Como um bando de garças na planície;
E em lugar desse brando rumorejo
Aí murmurará a voz de um povo;
Essas encostas broncas e sombrias
Serão risonhos parques suntuosos;
E esses rios, que vão por entre sombras
Ondas caudais serenos resvalando,
 
 
Em vez do tope escuro das florestas,
Refletirão no límpido regaço
Torres, palácios, coruchéus brilhantes,
(...)
Mil estradas, qual vasto labirinto,
Cruzar-se-ão por montes e planuras;
Curvar-se-ão os rios sob arcadas
De pontes colossais; - canais imensos
Virão surcar a face das campinas,
(...)


Bernardo Guimarães, poeta mineiro, nasceu em Ouro Preto.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
O ermo gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
17 de Dezembro de 2008

O ermo
Quae sint, quae fuerint, quae sunt
ventura, trahentur

(Virgílio)


Ao ermo, ó musa: - além daqueles montes,
Que, em vaporoso manto rebuçados,
Avultam lá na extrema do horizonte...
Eia, vamos; - lá onde a natureza
Bela e virgem se mostra aos olhos do homem,
Qual moça indiana, que as ingênuas graças
Em formosa nudez sem arte ostenta!...
Lá onde a solidão ante nós surge,
Majestosa e solene como um templo,
Em que sob as abóbadas sagradas,
Inundadas de luz e de harmonia,
Êxtase santo paira entre perfumes,
E se ouve a voz de Deus. – Ó musa, ao ermo!...
 
Como é formoso o céu da pátria minha!
Que sol brilhante e vívido resplende
Suspenso nessa cúpula serena!
Terra feliz, tu és da natureza
A filha mais mimosa; - ela sorrindo
Num enlevo de amor te encheu d'encantos,
Das mais donosas galas enfeitou-te;
Beleza e vida te espargiu na face,
E em teu seio entornou fecunda seiva!
(...)
 
II
 
(...)
Desfeita no outro dia, eram bastantes
Para abrigar o filho do deserto;
No carcás bem provido repousavam
De todo o seu porvir as esperanças,
Que suas eram da floresta as aves,
E nem lhes nega o córrego do vale,
Límpido jorro que lhe estanque a sede.
No sol, fonte de luz e de beleza,
Viam seu Deus, prostrados o adoravam,
Na terra a mãe, que os nutre com seus frutos,
Sua única lei – na liberdade.
 
Oh! floresta, que é feito de teus filhos?
Esta mudez profunda dos desertos
(...)
 
(continua amanhã)


Bernardo Guimarães, poeta mineiro, nasceu em Ouro Preto.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
Cântico para uma cidade-moça gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
16 de Dezembro de 2008

Cântico para uma cidade-moça

Porque as grandes cidades, Senhor – disse Rilke –
são malditas. E o vento que as sibila
não segreda ternuras de amor numa missiva
levada em mãos de escravo hitita pelas ruelas
de Mohenjo-Daro cujo perfume aqui respiro
de almíscar e favas de tamarindo.
Não,
não desvendo em que frasco de opalina e auricriso
o perfume se oculta, em que asa ou setor
de Brasília que alambiques que flores o instilam.
Saber como?
Por onde deambula o fatídico corcunda
se nessa catedral cônica sem esconderijos
as paredes tudo denunciam transparentes
de corpo e alma, em reflexos azuis.
Pergunto
entre jardins suspensos, se torres de Babel as há
símiles na arrogância, com igual
argúcia feitas de arquiteto sacrílego.
Quem me dera foras a mesma do sonho
que te fizera muralhas inexpugnáveis
mais uma trombeta só derrubou.
Ah! Temo por ti, minha pequena Brasília
que chamei de carinho a Cidade-Moça
ingênua, pura, casta, virgem,
até que um gramático idiota arranque teu hífen como os sodomitas
de sua cidade rasgaram o hímen:
em nome da ciência e da civilidade.
Nunca
não deixarei que te gramatize um velho
debochado, chamando-nos ignorantes, parvos
labregos, vermes do planalto central.
Sou de ti, tu de mim espelho e contracapa
do por-vir descrentes, afogados na vertigem
do presente preto-e-branco que é cópia e negativo.
Neste álbum de postais Kodacolor papel fosco
onde me sinto intruso num 3x4 de carteirinha.


Augusto Estellita Lins, poeta natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
Luziânia revisitada gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
15 de Dezembro de 2008

Luziânia revisitada

Cavalos forasteiros no asfalto
me conduzem ao tempo do chão batido
aos velhos becos de poças e estrume
trinta anos atrás. Onde estão eles?
O som do sino some estrangulado
pelo rugido de rodas e motores.
Cores e toques turísticos nas casas
mascaram a bexiga do granizo.
Procuro a imensa sombra redonda
do tamboril reinando na praça
a verde e colossal galinha choca
cujas asas aninhavam meus filhos.
Tropeço na lenha do seu esqueleto.
A igreja, caolha sem uma torre,
fraturou a paisagem da memória.
Só as jabuticabeiras, olhos plurais
Desorbitados por braços e troncos,
espiam na solidão dos quintais
os transeuntes curiosos vasculhando
relíquias da colônia, comprando
as seculares caixetas de marmelada
de remanescente quilombo.
A sorte é que ainda me lembro,
ainda me lembro de como era antes.


Astrid Cabral, poetisa amazonense, nasceu em Manaus.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

 
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14 de Dezembro de 2008

Altiplano

(final)
 
Na confluência das virilhas
      o dique
      represa os córregos.
      Bastam um abrir de comportas
      e um rio
      irrompe em cólera.
 
      Na confluência dos parias
      e um rio
      irrompe em cólera.
 
      Na confluência dos parias
      um dique.
 
Cresce uma pétala
      na rosa-dos-ventos.
      Desviam-se para Oeste os rios de orvalho,
      de que o asfalto, o aço, o concreto,
      o abstrato,
      tudo é resíduo.
      Cruz resumindo sacrifícios,
      avião demandando o futuro.
      Símbolos.
      Reais são os mortos, alicerces nossos;
      real é o presente, imenso,
      bruto
      canteiro de obras.
 
No Planalto, lenta,
      se abre:
       rosa superfaturada
       em vidro-plano e concreto.
 
       Contraditória
                          rosa
                                     explosiva.
 
De tuas impurezas,
de tuas asperezas,
rosa queremos-te
exata.
No altiplano de nossas esperanças,
rosa-dos-homens
construímos-te futura.


Anderson Braga Horta, poeta mineiro, nasceu em Carangola.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
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13 de Dezembro de 2008

Altiplano

(continuação)
 
 
Todas as peças
         no tabuleiro.
Reis, bispos, torres.
E os cavalos.
À frente – os peões.
 
A batalha começou
sem que ninguém desse por isso.
E em lances bruscos
a cavalhada,
dos flancos,
da retaguarda,
salta
e atropela peões em marcha.
 
Silêncio
de gritos
coagulados.
 
Sacrificam-se os peões,
ficam-se os reis.
É a lei.
do xadrez.
Mas onde o exército inimigo?
 
No imenso tabuleiro
há um formigamento de cruzes
anônimas. Subterrâneos,
os mortos
suportam o peso
do porvir.
 
Ávida suga a terra
        as mil línguas da chuva.
        Intimidade.
        Poros abertos, solos refratários à lama.
        No entanto, há lama
        nos pés, nas máquinas,
        nas almas.
        Águas avolumam-se, pejando a represa.
        Grávidas terras falam ainda de uma pureza intratável.
        No ar seco, um vento áspero
        fala de lutas.
 
(continua amanhã)


Anderson Braga Horta, poeta mineiro, nasceu em Carangola.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
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12 de Dezembro de 2008

Altiplano

Ventos e chuvas corroeram arestas,
dispersaram resíduos,
e o terreno está pronto: esqueleto
à espera da carne.
E vieram os pioneiros
e rasgaram os mapas
(no papel, o embrião): corpo
à espera de uma alma.

E vieram os primeiros peões.
E vieram
e voltaram
no périplo (sem portos)
da fortuna.
E vieram
e voltaram
e vieram
no fluxo e refluxo
da fome.
E vieram
e ficaram
plantados,
árvores migrantes
- torcidas de séculos –
enraizando, úberes, dedos
salgando impossíveis céus.

(continua amanhã)


Anderson Braga Horta, poeta mineiro, natural de Carangola.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
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11 de Dezembro de 2008

Altiplano

Antes do começo,
        era o sertão, só e ríspido.
        Vegetais cheios de ódio fitando os céus impossíveis
         e apontando a terra sáfara.
         Dedos torcidos de séculos.
         Bênçãos dissimuladas sob a raiva.
         Natureza virgem à espera da posse.
 
Sob a carne desidratada
         destas planuras,
          já se pressentem – hígidas –
          as covas futuras.
          E dessa carne e dessas covas
          - morte aparente –
          já se pressentem fluindo em ouro
          arquivindouras
          fartas torrentes.
 
          A vida na morte
          enraíza.
 
Dialéticos pequis
          de coração de ouro e farpas
           guardam-se verdes do grito áureo dos tucanos.
           Veados camuflados.
            Tatus embutidos.
            Arisca florifauna.
 
            Ásperos minerais irônicos,
            no fundo, sorriem
            e esperam.
 
A erosão comera o ventre da terra
            e chupara-lhe as lágrimas.
            De outras terras também calcinadas
            o húmus viria:
            mãos nodosas,
            magras mãos,
            mãos rudes, mãos férreas,
            - mãos –
            com o próprio
            sangue ralo de anemia
            regarão o alheio dia.
 
 
(continua amanhã)

Anderson Braga Horta, poeta mineiro, nasceu em Carangola.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
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10 de Dezembro de 2008

Brasília
 
(final)
 
III
 
desde o princípio cumpria que rompesses
com tempo passado e as coisas presentes.
tão crua                   não te suspeitávamos
da novidade
em claro, forma, espaço,
a para mais adiante projetada, para além,
tomavas posse da terra,
norte acima, selva atr
avessada, ex-cedida até Belém,
primeira espinha dorsal do Brasil.
(caminho das onças, eles insultavam).
nós trabalhávamos
e eles conspiravam
desarticular-te,
eles conspiravam parar mudanças,
novas maiores enormes transformações,
parar a enorme energia sem peias a romper de ti.
mas reverdecias o que temos de não
conforme, não satisfeito, não pré
enchido em lacunas e grandeza e azul.
nascíamos novos
impulsos de continuar
a abrir fronteiras.
 
Aricy Curvello, poeta mineiro, nasceu em Uberlândia.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

 
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09 de Dezembro de 2008

Brasília
 
(continuação)
 
II
 
tu própria, apenas chão de promessas,
terra vermelha, só, e rios e o cinzento
                       sujo do cerrado
 
órfão.
sobre tudo, o céu mais claro do mundo
abandonado, céu sozinho, cru.
 
que te erguesses no centro da
noitidão de uma república deserta.
 
2/3 do mapa eram
"desalentadores vazios demográficos"
 
e as primeiras paredes as primeiras c
asas a primeira fumaça das chaminés
no carrascal primeiras vozes
vagas estruturas com pressa de pilares
fogos acesos nos canteiros de obras
                          de um Brasil diferente
declaravam que crescias
                          de rasos lápis e compassos
                          do papel seco surgias
líquida
no ar sobre nós,
crescias, anseio, abrangência pelo país,
Brasília dos brasileiros,
tão próxima te fazias,
                           canção de
                           construção, de todos, nacional.
 
(continua amanhã)
 
Aricy Curvello, poeta mineiro, nasceu em Uberlândia.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
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08 de Dezembro de 2008

I
 
não,
não poderias cidade ser igual
às outras, na ampla e só planície
de uma república por vir, excessiva
mente por nós necessitada.
 
no desconhecido e no sobressalto
haveriam desde o princípio os minúsculos
adoradores de controles os partidários da rotina
meros habitantes de municípios
de ser contra ti,
 
antes de nascida que já eras
negação de um país inteiro
ancorado em litoral, entre diminutos
sistemas de medidas e recusas.
 
desde o princípio, sinal de contradição,
era preciso que
viesses, para o oeste, a oeste de tudo
nos obrigasses até lá mover-nos entre
aço e pregos e cimento
ladrilhos tábuas canos imensos
                        e canos calejados
para construir ou encontrar
antes desviados, a nós m/esmos
no chão do chão
poeirento do planalto.
e plan/altos chegávamos
ainda sem compreender, mas
                        cantávamos.
 
(continua amanhã)
 
Aricy Curvello, poeta mineiro, nasceu em Uberlândia.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 
JEITO RETRATO gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
07 de Dezembro de 2008

JEITO RETRATO

Em meio à mata
um homem forte
feito uma árvore.

Um belo rosto,
com se fosse
esculturado.

Olhos de mando.

Rústicos trajes:
botas de couro,
as calças de cáqui,
camisa branca.

Um bandeirante.


(Aqui indagamos:

e atrás do rosto
do homem de audácia?
Dentro da roupa
do hércules franco?

Alma de marcha
passo gigante.)

Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 

 
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