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A mística do Catetinho, por Ernesto Silva. gerar PDF versão para impressão enviar por e-mail
23 de Novembro de 2007

"É preciso recordar. O povo que não lembra seu passado perde a identidade coletiva." (Henry Sobel)
Dia 10 de novembro, inauguração do Catetinho, nenhum órgão de imprensa desta cidade se referiu à importante data. Eu o faço agora. O Catetinho é símbolo de Brasília. Representa o idealismo, a fé, a esperança, o amor ao trabalho, a bravura, o desprendimento, o patriotismo de milhares de brasileiros que, sob o comando seguro do Presidente Juscelino Kubitschek, acorreram ao Planalto Central para edificar esta cidade, jóia do urbanismo moderno, que devemos preservar, eis que tombada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Nesse modesto e monumental Palácio de Tábuas, forjaram-se os planos revolucionários e dele partiram as ordens decisivas. Juscelino à frente, com espírito pioneiro e imaginação criadora, humanitário e bom, nos reunia, ouvia a todos e traçava os rumos. Assim, tornou-se imperativo que cada soldado dessa primeira linha de batalha se armasse de bravura absoluta, se revestisse de desambição e se empolgasse no renovado espírito de pioneirismo. Qualidades positivas de operosidade e de renúncia, capacidade realizadora, ânsia de progresso, fé nos destinos do Brasil se apresentariam libertas das antigas restrições, em toda a plenitude, na arrancada inicial.

Pelo exemplo e pela realização, era necessário destruir o conformismo que acomodava a consciência nacional em morna sonolência. Por isso, ao lidador da primeira hora de Brasília não foram permitidos o ócio, a pausa, a vacilação. Daí, a dureza das obrigações, quase desumanas, que todos sentiram nos regimes de serviço e na exigência de rapidez e da perfeição da obra. Portanto, não se pode permitir que seja esquecida a brilhante história da capital de um País que foi erguida com o patriotismo e a determinação do próprio povo. O Catetinho é uma lição para as gerações futuras.

O Catetinho foi construído em 10 dias (de 22 a 31/10/1956) por amigos de JK (Oscar Niemeyer, João Milton Prates, José Ferreira de C. Chaves, o Juca Chaves, Roberto Pena, César Prates, Dilermando Reis, Vivalde Lyrio, Osório Reis e Agostinho Montanddon) e dedicados operários. No dia 1º de novembro de 1956, os engenheiros e operários que trabalham na edificação da residência presidencial provisória se reúnem em um churrasco. No dia 10 de novembro de 1956, por via aérea, JK chega a Brasília a fim de inspecionar o andamento dos trabalhos a cargo da Novacap. Do aeroporto, JK dirige-se ao Catetinho.
Assim descreve JK a inauguração do Catetinho: "A recepção foi festiva. Do aeroporto provisório, segui diretamente para o Catetinho, onde grande número de pioneiros me aguardavam. Um temporal desabou sobre o local nesse momento, fazendo com que a festa, que teria lugar ao ar livre, fosse realizada no interior do Palácio de Tábuas. Serviu-se um almoço, com mesinhas espalhadas pela casa inteira, inclusive na varanda. E, em seguida, realizei ali o meu primeiro despacho. À noite, depois do jantar, teve lugar uma serenata com os pioneiros – a palavra candango ainda não havia sido criada – entoando o "Peixe-Vivo" e o "Canto da Nova Capital" (música de Dilermando Reis e letra de Bastos Tigre). O Catetinho foi, pois, um símbolo. Foi ele a flama inspiradora que me ajudou a levar à frente, arrastando o pessimismo, a descrença e a oposição de milhões de pessoas, a idéia de transferência da sede do Governo.

A mística do Catetinho foi, pois, precursora – dada a emulação que provocou – da mística de Brasília, consubstanciada em pioneirismo, em espírito de criação e na determinação de enfrentar o que parecia impossível. E a mística de Brasília, por sua vez, contagiando o País inteiro, realizou o milagre da construção de uma metrópole revolucionária, em três anos e dez meses".
O Catetinho foi tombado pelo presidente Juscelino Kubitschek, em 22 de julho de 1959 e inscrito sob o número 329, Folha 55, no Livro do Tombo Histórico do Instituto Histórico e Artístico Nacional.
 
Ernesto Silva

 

 
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